Vozes da Experiência
As mulheres de Tombadouro são guardiãs de histórias, força e sabedoria. Suas vidas são testemunhas de resiliência, amor familiar e dedicação comunitária. Aqui homenageamos as mulheres que moldaram e continuam moldando a história de nossa comunidade.
Maria Eva da Silva (Mariquinha)
Maria Eva da Silva, carinhosamente conhecida como Mariquinha, nasceu em 31 de dezembro de 1949, na Cachoeira, filha de Ernesto Soares da Silva e Maria Júlia de Jesus. Casou-se com Sebastião Soares da Silva e teve 11 filhos, todos criados com dedicação, afeto e muitos sacrifícios.
Após o casamento, morou em Tombadouro, mas diante das dificuldades de trabalho, mudou-se com seu esposo para São Paulo, onde a família buscava melhores oportunidades. Mariquinha foi uma mulher marcada pela força e coragem, enfrentando desafios e perseguições, mas nunca deixou que isso apagasse seu sorriso ou sua dignidade.
Tinha um talento especial para fazer quitandas, e uma de suas maiores alegrias era receber as pessoas em sua casa. Qualquer um que passasse pela rua era convidado para tomar um café — mesmo que não conhecesse, sempre acolhia com generosidade. Sua casa na rua São Gonçalo era simples, mas tão aconchegante quanto seu coração de mãe.
Deixou um legado imenso: 11 filhos, 23 netos e 4 bisnetos. Era uma verdadeira mulher da comunidade: ajudava, aconselhava, apoiava e acolhia sem esperar nada em troca. Faleceu em 03 de agosto de 2021, deixando muita saudade e uma história de luta, coragem e generosidade.
Irene de Jesus Pinto (Tia Nenega)
Irene de Jesus Pinto, conhecida carinhosamente como Tia Nenega, é reconhecida e admirada por sua força, fé e humildade. Aos 84 anos, é mãe de 13 filhos e uma presença essencial na comunidade. Sua trajetória é marcada pelo trabalho constante, dedicação à família e cuidado generoso com todos ao seu redor.
Ao longo da vida, Tia Nenega trabalhou intensamente na roça e atuou por muitos anos na escola local. Por isso, é muito querida pelos ex-alunos, que a veem como uma presença acolhedora, sempre atenta às necessidades das crianças e disposta a ajudar quem precisasse.
Enfrentou desafios profundos: perdeu quase todos os irmãos e também perdeu o marido, mas manteve-se firme, lutando para honrar sua família, sustentar sua casa e manter todos unidos. Muito habilidosa na cozinha, prepara alimentos simples e saborosos, sempre feitos com carinho. Sua humildade é uma de suas marcas mais fortes: nunca se vangloria do que fez, agindo com naturalidade ao demonstrar bondade, atenção e fé.
Reza diariamente pelas pessoas da comunidade. Suas raízes negras e indígenas estão presentes em sua história e memórias, guardando lembranças especiais da infância simples, vivida em uma casa pequena, onde trabalhava na roça ao lado dos irmãos, ajudava a criar os mais novos e participava da produção de farinha e rapadura.
Geralda Pinto da Silva (Dindinha)
Geralda Pinto da Silva, conhecida afetuosamente como Dindinha, foi uma das mulheres mais marcantes de sua comunidade. O apelido nasceu de seu jeito carinhoso e acolhedor: ela cuidava não apenas de seus filhos e netos, mas também das crianças ao redor, tornando-se uma figura respeitada e querida por todos.
Dindinha teve cinco filhos biológicos e criou também uma criança cuja mãe havia falecido, formando uma família com seis filhos. A casa onde viviam era simples e pequena, sem luz elétrica, sem água encanada e sem os recursos básicos que hoje são comuns. Mesmo assim, o lar era cheio de vida, trabalho e união.
O marido de Dindinha era raizeiro, trabalhando diretamente na terra, nas plantações, na lavoura e no minério. A vida dependia do que plantavam e colhiam, especialmente alimentos como o feijão. O trabalho era constante e exigente. Muitas vezes, vizinhos solidários ajudavam quando percebiam que a família passava por dificuldades. A comunidade se unia nos momentos mais duros, fortalecendo laços de apoio mútuo.
Apesar das dificuldades materiais, a vida era cheia de alegria. A comunidade recebia visitas aos sábados de violeiros e famílias inteiras. Eram tempos de simplicidade, mas também de muita convivência, festa e carinho entre as pessoas. Dindinha carregava essa mistura de força e doçura, sempre alegre, vivendo plenamente cada fase da vida. Faleceu em 2008, aos aproximadamente 100 anos, deixando um legado de fé, amor, simplicidade e força.
Maria das Mercês dos Santos
Maria das Mercês dos Santos, hoje com 88 anos, nasceu na beira do rio Pará, "do outro lado do rio", como ela mesma descreve. Sua infância foi simples e marcada pelo trabalho na zona rural. Desde muito nova, ajudava a família na roça, na plantação e na produção de farinha, sempre acompanhada pela mãe e tia.
Estudou um pouco, aprendendo a ler com livros simples e exercícios no quadro negro com auxílio da professora Lourdes Maria de Araújo. Precisou interromper os estudos cedo, pois o trabalho chamou antes da hora. Aos 17 anos, casou-se e veio morar em Tombadouro, lugar onde vive até hoje.
Teve 12 filhos, mas um deles faleceu ainda bebê; assim, criou 11 filhos praticamente sozinha. Seu marido passou mais de vinte anos trabalhando fora, em São Paulo e no Paraná. Enquanto isso, Maria ficou responsável por tudo: cuidar das crianças, manter a casa e trabalhar na roça para complementar a renda.
As dificuldades eram muitas: a casa não tinha luz elétrica, não havia água encanada e a estrutura era muito simples para uma família tão grande. Mesmo assim, ela nunca deixou faltar cuidado, afeto e orientação. Todos os filhos foram alfabetizados e cresceram dignamente. Hoje, todos estão vivos, próximos e unidos.
Viúva há alguns anos, Maria vive em Tombadouro há mais de seis décadas, cercada por filhas, netos, bisnetos e tataranetos. Profundamente religiosa e cristã, afirma viver com gratidão e paz, sempre colocando Deus à frente de tudo. Sente-se feliz, realizada e orgulhosa da trajetória que construiu.
Dona Cututa Maria da Mercês Cardoso (Vovó Cututa)
A Comunidade de Tombadouro presta tributo especial a Dona Cututa Maria da Mercês Cardoso, uma mulher amável, respeitada e profundamente querida por todos. Mais do que uma moradora antiga, ela foi um pilar da comunidade, uma presença constante de carinho, dedicação e sabedoria.
Ao longo de mais de noventa anos, Dona Cututa se tornou referência de acolhimento e humanidade. Sua casa sempre esteve de portas abertas, oferecendo colo, cuidado, conversa, amor e acolhimento, gestos que marcaram gerações inteiras. Para muitos, ela foi como mãe; para outros, avó; para todos, um exemplo de fé e bondade.
Considerada por toda a comunidade como verdadeira matriarca, Dona Cututa guardava histórias, fortalecia laços e ensinava o valor da união. Sua doçura firme e seu coração generoso deixaram marcas profundas na memória de Tombadouro. Ela fez da simplicidade um gesto de grandeza e da convivência um ato de amor.
Legado de Força e Amor
Essas mulheres representam a força da comunidade de Tombadouro. Suas histórias de resiliência, dedicação familiar e amor incondicional continuam inspirando gerações. Cada uma delas deixou um legado de fé, trabalho e solidariedade que permanece vivo na memória e no coração de todos que as conheceram e continuam conhecendo suas histórias.