Uma Mulher, Um Lugar, Uma Geração
Quando cheguei em Tombadouro, percebi o quanto as pessoas, mesmo que inconscientemente, preservam a cultura e os costumes locais. E isso me remeteu aos tempos de criança quando ouvia da minha avó as histórias locais, a culinária, as festas religiosas, as fogueiras, os costumes, e através dos seus relatos e da cultura local me identifiquei e tive a sensação de pertencimento com essa comunidade.
Embora minha avó não seja daqui, seus relatos são parecidos aos de Vovó Cututa, uma das matriarcas locais. Quando se fala de Cututa, se fala de Tombadouro. Sua vida é a história de um lugar. Diante de tantos relatos, resolvi escrever sobre ela e, através de sua vida, contar histórias de muitas pessoas que viveram uma época e que se identificam com uma geração: "a Geração de Ferro" – aquela que suportou provações, preservou tradições e construiu a comunidade com sabedoria ancestral.
Vovó Cututa: A Matriarca de Tombadouro
Cututa nasceu em 22 de novembro de 1928 e faleceu em 15 de agosto de 2025, aos 97 anos completos. Sua longevidade foi testemunha de séculos de transformação de Tombadouro. A maioria dos moradores da comunidade são seus parentes – filhos, netos, bisnetos e tataranetos que herdam não apenas seu sangue, mas sua sabedoria.
Ela tinha orgulho em falar que de seus 14 filhos, nasceram dezenas de netos, ampliando-se em gerações de bisnetos e tataranetos. Cada um deles carrega em si um pouco de sua força, sua fé, suas receitas, suas superstições e seus ensinamentos. Vovó Cututa foi mais que uma matriarca – foi a guardiã viva da memória de Tombadouro, aquela que conectava passado, presente e futuro através de suas histórias, chás medicinais, conselhos e brincadeiras.
Os Primeiros Anos: Raízes em Andrequicé
Cututa nasceu na comunidade de Andrequicé, durante os anos 1920, época em que a vida era marcada por dificuldades inimagináveis aos olhos modernos. Sua infância foi vivida em um lugar distante de tudo, onde não havia água encanada, e as pessoas precisavam caminhar longas distâncias até o rio para abastecer suas casas, lavar roupas, vasilhas e se banhar. Cada gota de água era preciosidade, cada viagem ao rio uma aventura perigosa.
Na comunidade onde cresceu, não havia iluminação elétrica – apenas lampiões iluminavam as ruas ao anoitecer. Mas era justamente nessa escuridão que aconteciam as melhores brincadeiras, os primeiros namoros e as histórias que moldavam a identidade das crianças. Era ali que Cututa aprendia as tradições, as brincadeiras de roda, as canções que seus pais e avós lhe ensinavam, formando a base de tudo que seria sua vida futura.
Brincadeiras que Marcaram Gerações
Na porta das casas, durante as noites de luar, uma molecada brincava das mais diversas formas. Uma das brincadeiras mais populares era a "Cabeça, Barba do Bode e Confite", onde todos colocavam os braços cruzados para trás, segurando a mão um do outro, e iam rodando até se desfazer. Era nessas brincadeiras que se aprendia a cooperação, o ritmo e o senso de comunidade.
Havia também cantigas que contavam histórias de magia e transformação. A história da "Rolinha que fez seu ninho" ecoava nas noites: "A rolinha fez seu ninho para seus ovos chocar, veio a cobra e bebeu os ovos e a rola pôs-se a chorar." Outras brincadeiras ensinavam sobre classes sociais e destino, como a do "Rei que mandou buscar uma das filhas para casar", onde a pobre filha podia conquistar o reino através da própria alegria e encanto.
Essas brincadeiras não eram meros passatempos – eram a forma pela qual a comunidade transmitia valores, histórias, lições de vida. Cada canto, cada gesto, cada movimento carregava significado ancestral. Cututa aprendeu tudo isso em sua infância e, mais tarde, ensinaria aos seus filhos e netos, perpetuando uma cadeia de memória viva.
Dos Brinquedos e Brincadeiras: Batizados de Bonecas
"Nos fazíamos as bonecas de pano, eu era a costureira. Então fazia uma boneca de pano maior que era mãe, depois bonecas menores que eram os filhos e filhas. Fazia também um bebê do qual a gente fazia o batizado. Eu adorava fazer as roupinhas. As costureiras passavam apertadas para arranjar os retalhos."
Havia a brincadeira do "Romba Coelho", onde fazia uma roda de mãos dadas e dentro da roda ficava um menino ou menina. A gente falava: "romba coelho" e ele tentava arrebentar a corrente. Quando conseguia, saía correndo e quem conseguisse pegá-lo ficava sendo coelho da vez.
Quando era época de plantio de arroz, quase todos da redondeza plantavam. Os pais colocavam os filhos para vigiar contra os pássaros pretos. Ali a gente inventava os brinquedos para passar as horas. Fazíamos carros de boi com sabugo de milho. Tinha também os cargueiros feito de forquilha, nos quais colocávamos uns panos e carregávamos as coisas.
Os meninos pegavam uma vara e juntava aquele tanto de meninos, fazendo um cavalo de pau cada um. Colocavam os arreios e saiam pulando, rinchando como se fossem cavaleiros de verdade. Era uma forma simples e criativa de transformar o que tinham ao alcance em diversão pura.
Até mesmo o namoro tinha suas próprias brincadeiras e regras. O casal sentava um longe do outro e o pai ficava entre eles, vigiando de perto. Assim, a comunidade preservava seus valores enquanto permitia que os jovens expressassem seus sentimentos dentro de limites respeitosos.
A Resiliência da Geração de Ferro
A vida em Tombadouro durante o século XX era uma luta constante contra a precariedade. Os alimentos eram cultivados pelas famílias em suas pequenas roças. A saúde era precária – não havia hospitais por perto, e os remédios eram os chás que os antigos indicavam. Quando uma criança nascia, não havia maternidade; os partos eram feitos em casa, por parteiras, e muitas mães e bebês faleciam por falta de cuidados médicos apropriados.
Mas onde faltava medicina moderna, havia sabedoria ancestral. Os curandeiros e benzedeiras praticavam uma medicina popular baseada em conhecimentos tradicionais que atravessavam gerações. Eles utilizavam ervas, orações, gestos e rituais para promover cura e bem-estar. Era uma sabedoria que não vinha de laboratórios, mas das mãos da terra, das folhas das árvores, da fé inabalável de um povo que sobrevivia ao impossível.
Os Chás e Ervas: Farmácia da Floresta
A medicina popular de Tombadouro era rica e diversa. Para cada doença, havia uma erva; para cada sofrimento, um chá. O camomila acalmava os bebês inquietos. A hortelã aplacava dores de barriga. A erva doce combatia gases e cólicas. O boldo tratava a má digestão. O capim santo aliviava dores de cabeça. O alecrim energizava os cansados. O manjericão suavizava gargantas inflamadas. A canela aquecia contra o resfriado. A erva cidreira melhorava o sono.
Além dos chás, havia garrafadas – misturas de ervas deixadas de molho em álcool, vinho ou cachaça, usadas para fortalecer o corpo ou tratar doenças crônicas. Havia xaropes caseiros feitos com mel, limão, gengibre e alho para tosse. Havia compressas de folhas aquecidas para aliviar inflamações. Havia remédios para pressão alta, febre, digestão – uma farmacopeia completa que existia não em boticas, mas na sabedoria das mãos das mulheres como Vovó Cututa.
As Benzedeiras: Guardiãs da Proteção Espiritual
Além dos curandeiros com suas ervas, havia as benzedeiras – mulheres dotadas de poder espiritual que praticavam rezas, gestos e rituais para afastar o "mau-olhado", curar dores misteriosas e proteger as crianças do mal invisível. Elas utilizavam água, carvão, ramos de arruda e guiné em cerimônias que combinavam fé católica com conhecimentos ancestrais africanos.
A crença era forte e justificada pela prática: quando alguém adoecia sem explicação aparente, ou quando uma criança nascida perfeita começava a apresentar sintomas inexplicáveis, era hora de procurar a benzedeira. Suas orações e rituais traziam alívio, paz mental e, muitas vezes, cura. Era uma forma de medicina que tratava não apenas o corpo, mas a alma, reconhecendo que saúde é integralidade entre físico, emocional e espiritual.
Plantas Sagradas: Escudos Energéticos
Na cultura de Tombadouro, certas plantas eram consideradas sagradas, dotadas de poder protetor. A arruda afastava inveja e mau-olhado, atraindo prosperidade para as casas. O alecrim protegia ambientes, estimulava atividades mentais e transmutava energias negativas. O guiné criava um campo de força contra más energias e feitiços. A Espada de São Jorge cortava e afastava negatividade como inveja. O manjericão expulsava pensamentos negativos e trazia harmonia.
Essas plantas não eram meras decorações – eram escudos energéticos. Eram penduradas nas portas, colocadas em banhos, queimadas como incenso ou arranjadas em vasos sagrados. Cada folha tinha propósito, cada aroma tinha poder. Essa era a sabedoria que Vovó Cututa carregava consigo – conhecimento de que tudo em Tombadouro, desde a floresta até o ar que se respira, carrega energia que pode ser canalizada para proteção e cura.
As Superstições: Sabedoria Codificada em Crenças
"Se colocar vassoura atrás da porta, a visita vai embora." "Se a criança brincar com fogo à noite, urina na cama." "Se o chinelo ficar virado para baixo, a mãe morre." "Se quebrar espelho, vai ter azar por sete anos." "Se varrer os pés, não vai casar." "Se comer ovo com manga, jabuticaba ou laranja, é veneno mortal." "Se dormir logo após comer, fica variado."
As superstições de Tombadouro eram inúmeras, transmitidas de boca em boca, de geração em geração. À primeira vista, podem parecer meras crenças infundadas. Mas, observando mais profundamente, percebe-se que muitas carregam sabedoria prática codificada em forma de mito. "Não comer e deitar em seguida" é de fato prejudicial à digestão. "Não lavar cabelo em água fria" protege contra resfriados. "Não nadar com barriga cheia" é aviso contra câimbras perigosas. As superstições eram uma forma de preservar conhecimentos práticos em uma sociedade sem acesso à educação formal.
Outros rituais carregavam esperança e agência: "Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo para arrumar um namorado." "Pular a fogueira de Santo Antônio três vezes garante romance." "Colocar semente de romã na carteira traz sorte e dinheiro." "Medir-se na bananeira faz crescer." Essas superstições eram formas de as pessoas, especialmente as mulheres, exercerem poder sobre suas vidas quando o mundo lhes oferecia tão poucas escolhas.
A Senhora Cututa de Senhor Joaquim
Quando Cututa se tornou a Senhora Cututa – esposa de Senhor Joaquim – sua vida transformou-se. Mas a transformação não foi abandono da vida anterior; foi expansão. Agora sua sabedoria, sua fé, seus chás e seus conselhos irradiam-se não apenas para sua família imediata, mas para toda a comunidade. Ela tornou-se mãe, avó, curandeira, benzedeira, parteira, cozinheira, conselheira.
Histórias abundam sobre como ela foi tão importante na vida da comunidade. Mulheres grávidas procuravam-na para parto seguro. Crianças doentes eram levadas a sua casa para beber seus chás milagrosos. Vizinhos pediam-lhe bênção para casamentos, colheitas, negócios. Seus filhos e netos foram agraciados por ela com amor incondicional, e esse amor transbordava para todos os que a cercavam.
O Que Aprendemos de Sua Vida
Vovó Cututa nos deixou um legado imenso: receitas que alimentam, conselhos que orientam, histórias que conectam, superstições que protegem, chás que curam, brincadeiras que ensinam, e acima de tudo, a compreensão de que somos parte de um continuum de sabedoria que vem de nossos ancestrais e deve ser transmitido aos que virão.
Sua vida foi a história de Tombadouro. Através de suas mãos e de seu coração, passaram os rituais das festas religiosas, as fogueiras de São João, os ensinamentos de fé cristã sincretizada com espiritualidade africana, as tradições de uma geração que sobreviveu ao impossível com dignidade, força e amor.
"Somos a memória ancestral feita carne. Somos a sabedoria das gerações que nos antecederam. Somos Tombadouro: passado, presente e futuro em eterna dança. E enquanto suas histórias forem contadas, Vovó Cututa estará viva entre nós."